Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Ensaio sobre a primeira pessoa do plural

A aritmética da linguagem postula que a soma do Eu com o Tu tem como resultado o Nós. A pressão de não viver numa ilha deserta, obriga-me a aceitar tal operação como uma verdade absoluta, sob pena de me tornar um proscrito. Em público digo que sim, mas na segurança do meu quarto, digo que não. No meu espaço não faço concessões a crenças alheias. Haverá certamente muitas formas distintas de provar que o Eu + Tu ≠ Nós. Obviamente que qualquer teoria explicativa iria sempre perecer de peritagem. Não duvido que existam muitos especialistas de bancada, mas nenhum se atreveria a partilhar as suas ideias no grande auditório. A minha teoria é bastante simples e tem origem na minha vida de lenço e jarreteiras: se a etiologia do Nós estiver relacionar com a palavra Nó, então este Nós, terá de ser o de escota. Qualquer escuteiro dirá, que para unir duas cordas de diferente espessura, se deverá fazer o nó de escota. Sujeitinho de difícil execução e bastante moroso. Nesta linha de pensamento, o Nós seria assim algo de concepção complicada e que demoraria muito tempo. Escusado será dizer que esta é a leitura que quase toda a gente tem do Nós. A união do Eu ao Tu é por isso muitas vezes associada a cedências, obrigações e adaptações. E quantas vezes o Eu e o Tu não se perdem neste caminho? Basta ver o que acontece quando o Nós termina: o Eu e o Tu a procurar referências antigas de quem eram antes do Nós. Os seus prazeres, vontades e orgulhos.
Acredito num Nós maior. Nunca enquanto somatório do Eu e do Tu. Algo que não principia no Eu ou termina no Tu. O Nós é uma vocação, uma missão. Personalidade independente, com os seus próprios gostos, desejos e vaidades. Uma linguagem que é sinónimo de pureza. Desenhada num céu de estrelas, fiada a linho silvestre, cozinhada em lume brando. Nenhum ensaio sobre a primeira pessoa do plural lhe faria jus. E estando o Nós refém da sorte do destino, não sei porque decidi escrever sobre isso…

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

O eco que preenche todos os lugares

O eco da minha voz é audível independentemente do lugar em que me acho. O meu passaporte deu-me a riqueza de testemunhar diferentes naturezas. Ontem um templo milenar e um glaciar multicolor, hoje uma gruta perturbadora e um deserto de areias quentes, amanhã uma sala de espectáculos e uma plantação de café. Descobri que pouco importa o pano de fundo em que encontro. O eco da minha voz está sempre presente. Haverá por ventura quem não acredite em tal facto. Os maiores cépticos não serão necessariamente os académicos e cientistas, mas sim os impacientes. O eco sempre se escuta, mas como tudo na vida, demora o seu tempo. Tem a sua agenda e horários próprios. Não se adianta, não se atrasa.
A natureza em que nos encontramos, nada mais é que o reflexo do nosso estado de espírito. A confiança e a felicidade conseguem um eco imediato como a música de uma orquestra num concerto de ano novo. A incerteza e a tristeza por sua vez, obtém um eco fugidio como a brisa de vento que agita os velhos castanheiros.
O eco é um acto de fé sobre as nossas próprias palavras. Por vezes não queremos escutar aquilo que sempre soubemos e o eco parece assim não existir. Isto é particularmente evidente quando estamos perante uma paisagem específica: o Ser Humano. Quantas vezes perdemos o rasto de quem somos perante a presença dos outros? A nossa voz parece muda, os nossos ouvidos parecem surdos.
Quantos vazios já todos nós presenciámos? Quantas respostas por dar, resoluções por tomar, caminhos a seguir? A lenta agonia estampada no nosso rosto, o siliêncio férreo cravado no rosto de outrem. E o eco das palavras que dissemos a escapar-se como se perante um hábil ladrão.
As respostas, resoluções e caminhos que ansiosamente precisamos, nada mais são do que as nossas próprias palavras. Todos os dias atento ao retinir das minhas palavras, e mesmo quando me perco, acredito que o meu eco me guiará...

Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

No lugar comum

Há uma história da qual não faço parte que se desenrola num local aonde não me encontro. Não reconheço o vibrar da minha voz, ou aqueles que dizem ser, os movimentos voluntários do meu corpo. A emoção que inunda a audiência não advém da fornalha dos meus afectos. Nego o meu envolvimento nos andamentos desta composição. É impossível estarmos a falar de mim, pois há muito tempo, que decidi quem querer ser. Não posso por isso ser eu. De forma nenhuma o poderia ser.
Querem no entanto fazer-me crer do contrário. Que até este pequeno texto encontra morada certa no argumento que conduz toda esta encenação. Palavras inseridas no capítulo em que se narra a reflexão do herói. Em que toda a jornada se encontra suspensa numa só questão: "- Serei eu mesmo este que aqui se interroga?". Inúmeros artifícios são burilados para me convencerem que este aqui se trata efectivamente de mim. Afirmam que as minhas falas foram ensaiadas, mesmo quando improviso interjeições de contestação. Que os silêncios suspirados são exactamente o som que se deveria pressentir no guião. Ou que os movimentos nervosos do meu corpo se fundem delicadamente com o cenário de cada trecho. Nada há de artificial, apenas tenho que me deixar levar.
Mas não pode ser. Isto é tudo uma ilusão. Não me deixo enganar assim. O "e de noite, de noite sonho contigo" não existe. Apenas é real o "não te quero, eu digo que não te quero". Por que eu o decidi assim. Não quero esse lugar comum aonde tudo faz sentido. No qual todos se encontram, ou todos para lá caminham. Eu optei pelo trilhar do caminho inverso. Sem olhar para trás e para tudo o que lá existe. E agora dizem-me que isso nada mudou? Que a minha decisão foi apenas a de não querer compreender. Por que este lugar comum não é murado. Que não existem as encostas que acreditei subir. Nunca daqui saí e nunca deixei de ser quem era. Afinal também havia um capítulo da negação em toda esta história...abastado mundo dos emoções...quem sou eu para te dizer que não...

Terça-feira, 29 de Março de 2011

As noites em que as palavras me despertam

As palavras fazem ouvir-se demasiado alto para as poder ignorar. O sono de alerta que me caracteriza está afinado a ponto de detectar mínimas alterações da realidade. O canto madrugador da cotovia, a criança do 2º andar que precisa de mamar, o vento que passa mais apressado.
Raras não são as vezes em que desperto ao som das minhas palavras. É impossível precisar o momento em que o tumulto se instala no vale dos meus lençóis. A minha inquietação de compreender o mundo obriga-me a dar nomes a todas as coisas, e estas palavras em tropel, tomaram o nome de Indiana Jones. Há sempre uma frágil ponte, feita de lianas e troncos de madeira, que une dois desfiladeiros. De um lado, canibais famintos e mil artefactos a descobrir, do outro, a tranquilidade das paredes de uma universidade. É no centro desta ponte, que liga o sonho à realidade, em que muitas vezes me encontro.
O natural cansaço provocado pelas noites em que as palavras me despertam, é apenas um pequeno pormenor desta fotografia. É um cabelo desalinhado, um atacador desapertado, a fralda fora das calças. Não tem importância alguma. O que é realmente mágico são efectivamente as palavras que descubro nestas noites mal dormidas. Por que representam o casamento perfeito entre o mundo dos sonhos e a realidade. E daí se fazerem ouvir com tanta folia e regozijo como à porta dos adros das igrejas .
Sei exactamente aquilo que irei dizer daqui a pouco. Na verdade, quaisquer simples palavras objectivas bastariam para o efeito pretendido. Mas depois desta noite, tenho agora comigo as melhores palavras que poderia ter. Um desperdício de palavras tão boas para algo tão sem importância.
Lamento imenso a intermitência destas noites em que as palavras me despertam. Em que descubro palavras forjadas no mundo dos sonhos, mas que lambem a mais pura das realidades. Não existem "palavras que nunca te direi". Existem sim palavras por descobrir no interior da corda bamba das nossas vidas. Das reais, das paralelas. Talvez, quem sabe, uma destas noites, encontre por fim as tuas palavras...

Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Para lá daqueles montes

Há um lugarejo ao qual pertenço para lá daqueles montes. Nado e criado em latitudes mais a Sul, mas ainda assim, filho das gentes dessa terra. Nas minhas veias tão pouco corre o sangue gélido daquele granito. Chamaram-me de Pistolas no dia em que me conheceram. Mas muitos anos antes, e diante a pia baptismal, outros deram-me o nome de João. A liberdade do pecado original em troca da minha verdadeira identidade? Por que na verdade, é a alcunha de Pistolas que me liga ao chão. À genuidade e pureza do ser humano. Nunca lá vi as perdizes que dão o nome a esse vilar, mas testemunhei carrinhas cravejadas de balas de G3. Museus vivos dos tempos áureos do contrabando em que se acendiam cigarros com notas de vinte escudos. Haverá um caldo de sopa quente à minha espera acompanhado por um carrilhão de insultos. A minha prolongada ausência assim o justifica. Cometerei ingenuamente o habitual erro de cortar o pão e o chouriço, à moda da cidade. E enquanto o carvalho faz o braseiro, o riso irá fluirá à minha custa. Ninguém me virá acordar, mas irei despertar ainda de noite. As caras familiares estarão todas reunidas ao pé do barracão, enquanto eu ainda tento aquecer as mãos no forro dos bolsos. As facas são afiadas e os porcos morrem de um só golpe. Fico sempre supreendido como a tensão desaparece num instante. A minha, e a dos animais. Há trabalho para fazer, mas ao mesmo tempo, já há fogo pronto para as assaduras, e o velho pote de ferro, ferve o sangue que ainda há pouco jorrava. E haverá depois uma malga de vinho para brindar a estes comeres. Quem sabe até, uma ida ao café, para uma bebida generosa. O focinho fumado irá à sucapa cair-me no prato quando nos dispusermos na mesa. Haverá vozes de protesto mas a Helena tratará de me defender tal como uma mãe protege uma cria. "Sois todos uns preguiçosos. O Pistolas é o único que trabalha". Uma das poucas injustiças que honestamente não me revolta. Irei acompanhar o Xeris pela raia espanhola na venda do pão. Haverá rugas galegas a dizer "Hoxe trouxese guardaespaldas? Déixase o estar comigo". E enquanto a carrinha ginga monte acima ouvirei as últimas da terra. O João Barraqueiro andará à urze e às giestas que manterão quente o forno do Revisor. Oirá divertir-se com a minha destreza a amassar o pão e que certamente me valerá as sempre sábias palavras transmontanas do Eliseu:"Minhotos e galegos é vê-los é fodê-los". O Acácio certamente que reclamará uma madrugada a sós comigo para a desmancha dos presuntos... E ainda haverá tempo para cortar abóboras e quase perder um dedo. Para lançar biscas de trunfo secas e de sofrer golos impossíveis na mesa dos matrecos. O frio da geada ganha expressão na forma como me querem. Nas gargalhadas que se fazem ouvir. Tal como a Carla escreveu: "A minha mãe ( e o resto do povo de Vilar) tambem não falava de outra coisa a não ser do Pistolas na matança. Dizia que fazias falta pelo menos para fazer rir...". Aqui reside o nosso acordo. Eu faço-os rir, eles dão-me quem são. O coldre está colocado...

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Cartografia

A noite cai adiantada no tempo, mas a luz permanece com a mesma intensidade. As bruxas assobiam em tom menor, mas a canção segue as notas da partitura. O frio gela o Outono das folhas perenes, mas o calor continua quente. Lá fora tudo se desmorona, mas junto de ti, a claridade, a melodia e o aconchego, parecem não ter fim. Quem me dera poder compreender como o fazes. Tenho tentado cartografar a tua geografia na vã esperança de conhecer os vales da tua magia. Não estivesses tu em constante erosão, e poderia aspirar a consegui-lo. Mas hoje és rocha firme que suporta o peso do meu corpo, amanhã és areia fina que ri por entre os dedos dos meus pés. Num corropio constante, como se de um jogo de esconde-esconde se tratasse.
Não sei como é que me aguentas. A minha ansiedade, eloquência e revolta. Mas dás-te a beber de um só trago, dizes palavras que nunca escutei, mostras-me o outro lado da amurada. Quando muitas vezes és vinho que precisa de respirar, silêncio que tem de ser ouvido, quietude a ser celebrada. Talvez sejas apenas a projecção dos meus sonhos. O meu mundo perfeito espelhado na tela de um cinema. Mas mesmo quando acordo, e a luz do projector se apaga, continuo a sentir-te junto da minha pele. Por isso te trato como se existisses, e te continue a procurar, nos esboços e traços, de que é feita a minha vida...

Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

A multiplicação das pequenas coisas

Três cubos de gelo e uma bebida licorosa. Camisola larga e meias grossas com borbotos. Meia luz e fados de Lisboa. Tanta coisa para escrever e a necessidade de recorrer a estes desbloqueadores. Afinal, nem sempre basta olhar para aquele jardim onde agora caem folhas secas. Para o pai que seca o cabelo à filha no balneário da piscina. Ou para o músico que dedilha na passagem subterrânea. Imagens que são matéria prima para os sonhos que depois realizo. No conforto da cadeira do eu, onde há apenas espaço para mim. E estas palavras como sinopse do imaginado.
No mundo do vivido, não posso deixar de brindar à multiplicação das pequenas coisas. Sejam elas uma carteira que foi um pacote de leite gordo, uma empada que ontem era um frango assado, um pano de limpar o pó que sempre tinha sido lençol de flanela.
Mas é a recriação das vivências que me desarma. A capacidade de criar novos enredos em volta de uma mesma história é um convite ao meu interesse. Delicio-me com as novas intrigas, ardis e logros. Sem qualquer facto novo e verdadeiro a acrescentar à história. Como se a mesma tivesse parado no tempo e nada mais houvesse para dizer. Por vezes até as mesmas graças, piadas e gozos. Tudo sempre pincelado por uma criatividade improvisada no momento, que se pode traduzir num tom de voz mais grave, num careta mais ousada ou num esbracejar fora do comum.
E assim volto a rir das mesmas coisas. Por que afinal já não são bem as mesmas coisas. São como folhas novas de Primavera. Mesmo que as raízes destas vivências um dia se encontrem demasiado enterradas para nos podermos lembrar da história original, não há dúvidas da origem dessas folhas. A certeza que num dia, algo se terá vivido.
A arte de fazer render o peixe ou de multiplicar os pães, não é um exercício de nostalgia ou de saborear o tempo que já não volta. É sim o desejo de novas aventuras, empresas e jornadas. Pelo menos, quero acreditar que sim...