terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A toalha bateu à porta

A semana passada uma toalha bateu à porta. Não deixei de sorrir, mas ao mesmo tempo em que a estendia sobre a mesa, um certa nostalgia apoderou-se de mim.
Passaram quase 9 anos desde que as minhas cunhadas se vestiram de noivas para os meus irmãos. Eu também me engravatei de forma a estar à altura destes dois dias tão especiais. Em ambos os casamentos havia uma toalha a cobrir o altar. Cada uma testemunhou a união de dois amantes perante uma plateia de sorrisos. Essas toalhas ficaram para a eternidade. Hoje vivem nos aparadores das casas deles e de vez em quando são convidadas a sentarem-se à mesa com todos nós. São telas de linho pinceladas a ponto cruz que contam uma história de amizade em forma de agulha e dedal. Há 9 anos atrás eu disse assim: "Ana Maria se até aos 30 anos eu não estiver casado, quero me dê a toalha quando eu os completar".
Na minha viagem pelo mundo gatinhei nos túneis de Cu Chi, caí na Deer Cave, caminhei à volta do Uluru, corri na Bokeo Nature Reserve, saltei à corda no Orfanato Santa Bakhita. Fui bébé, criança, adolescente, jovem e adulto, como o tinha sido nos trinta anos anteriores. A toalha é um marco do tempo. De tudo o que está para trás mas principalmente de tudo o que ainda virá. Com as manchas de vinho tinto e o riso dos meus sobrinhos. Com o calor das travessas e uma partida de king. Com os guardanapos dobrados à moda da avó Hermínia e a pressão dos cotovelos numa qualquer conversa.
A toalha poderá nunca entrar numa igreja. Mas será sempre testemunha de uma vida.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Penumbra do Adeus

Senti um raro frio naquele tardio amanhecer. A luz não se fazia entender e o girassol do jardim parecia perdido. Tudo se fez num misto de sombras de ilusões. O sono não os deixou acordar embora todos se encontrassem de pé. Os seus corpos embateram em mim da mesma forma que um condenado tomba sobre os joelhos. Não lhes li os olhos e mal lhes senti o pulso. Ainda dormiam quando me despedi deles. Palavras não se ouviram. Apenas lamentos mudos de tanto por dizer. O adeus na penumbra das emoções. Virei costas e as lágrimas caíram. Os seus braços acenaram até eu desaparecer. Espero que tenham voltado para a cama. Quem me dera também eu voltar a dormir. Mas sei que um dia a despedida teria de ocorrer. Eu agora preciso de me afastar deles. Não sei quanto tempo levarei a compreende-los. Mas sei que fazer esse caminho é compreender-me a mim próprio...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O barco e a ribeira

O barco vai cheio. A ribeira tambem. O barco
leva-nos a descobrir a ilha de Atauro.
A ribeira leva-nos a procurar pedras para reforcar a terra. O barco navega ao som dos caramelos que se desembrulham. A ribeira corre animada com o barulho das arvores que derruba. O barco espera por nos. A ribeira nao espera por ninguem.
O barco e a ribeira. Um sorvete de sabores distintos. Talvez pistacho e chocolate belga.
O barco trouxe a alegria de mais um passeio. Para muitos a emocao da primeira vez. Um novo local, um novo modo de transporte. Agora na popa, agora na proa. Todo um conves como entretenimento. E as cancoes do costume a animar a tripulacao que somos todos nos! O tempo de permanencia na ilha ee de apenas algumas horas. Como se de um cruzeiro se tratasse. E por isso o tempo ee bem aproveitado. As roupas sao rapidamente abandonadas e o mar pela cintura ee adoptado como morada.
A agua nao corre nas torneiras ha 5 dias. O ceu comeca subitamente com protestos na forma de relampagos e trovoes. A chuva ameaca cair e nos vestimos os calcoes de banho. Temos paciencia para esperar. Sabemos que ela viraa. Cada um de nos estaa na sua posicao. A agua chega com vigor e nos nao a queremos deixar fugir. O sabao escorre pelos corpos enquanto se trabalha rapidamente para guardar todas estas gotas preciosas. Os baldes e panelas sao carregados com todas as nossas forcas. Os bracos sao elevados ao ceu e os olhos sao cerrados como num qualquer agradecimento pagao. Mas rapidamente a realidade regressa. Choveu em demasia. A ribeira que ate ha dias era um campo de futebol, ee agora um rio furioso. Tudo leva, tudo destroi. La vai a mangueira, la vai a bananeira. Quase que vamos todos nos tambem, com a proximidade a que estas aguas se encontram de nos. A terra abate-se um bocadinho e todos saltam tres metros para tras. Eu com ar de preocupado, eles todos a rir...




domingo, 29 de novembro de 2009

Dia de passeio

As catupas estao feitas, as guitarras estao no camiao e o sol brilha com vontade. A viagem ate Liquica faz-se entre curvas apertadas e por cancoes do folclore portugues. A agua estaa quente e convida a entrar. Eu tomo a lideranca e o caldo rapidamente entorna. As brincadeiras sao mais que muitas, com guerras de cavalos, discos voadores e mergulhos de todas as formas e feitios. A coragem ganha corpo ao se entregarem nos meus bracos para aprenderem a boiar e a nadar. Eles ficam contentes com as habilidades aprendidas e eu fico feliz com a confianca que ja depositam em mim. O processo para os ganhar emocionalmente ee muito distinto da aproximacao a uma crianca dita normal. Mas as pequenas conquistas sao um de um sabor extraordinario. E funcionam como um estimulo acrescido. O almoco chega com catupas, salsicha e hortalicas sentadas no lencol de areia. A comida ee devorada rapidamente pois tenho de voltar para a agua, pois alguns ja la estao novamente.
O regresso do dia de passeio ee feito com muita chuva fria e sem tecto firme a proteger. Alguns choram de frio e tremem como varas verdes. Mas esfrega-se costas e canta-se a plenos pulmoes pendurados na carrocaria do camiao. Viva Timor Leste, Viva. Viva Portugal, Viva. Viva a Matematica, Viva. E assim afugenta-se as nuvens. E o calor regressa. O calor da gente...