segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O papel higiénico solidário

A decisão sobre qual o papel higiénico a comprar obedece normalmente ao balanço de dois critérios: marca portuguesa e número de rolos. Na passada segunda-feira, um critério maior falou mais alto no momento da selecção:  a solidariedade. Descobri que uma determinada Organização Não Governamental (ONG) da área da saúde, comercializa uma vasta gama de produtos, um dos quais, o papel higiénico. Este apresentava-se assim como um forma extremamente simples de contribuição social, e por isso, não houve qualquer hesitação no momento da compra.

O papel higiénico foi adoptado no lar e nada de relevante haveria a relatar até ao dia em que eu me constipei. Até esse o momento, o papel higiénico tinha apenas sido utilizado para a sua função primária, e nesse capítulo, não existiam queixas sobre a sua capacidade de absorção ou macieza. O problema encontrado foi efectivamente outro: o cheiro. Comecei a utilizar o papel higiénico para limpar o nariz e a princípio tudo também corria bem. Há medida que fui melhorando, e que algum ar começou finalmente a circular dentro das minhas narinas, apercebi-me então do indescritivel mau cheiro do papel.

Apesar de não ter conseguido comprovar na embalagem, acredito que este papel higiénico tenha origem em papel reciclado. A grande questão está em saber que tipo de papel reciclado foi efectivamente utilizado. Facturas do gás e da electricidade? Multas de estacionamento? Recibos de ordenado? Certamente que todos nós, em algum momento, escutamos ou proferimos o desejo de limpar o dito cujo a um destes papeis (é importante deixar claro que é a e não com uma vez que o sentido da intenção é distinto).

Infelizmente, o cheiro do papel higiénico solidário, é por de mais nauseabundo para que eu acredite, que este tenha como base as facturas, multas e recibos. Não que estes não sejam uma verdadeira trampa, mas mesmo assim, ainda estão muito longe da pestilência sentida no papel higiénico solidário. Para grande pena minha, apenas posso concluir, que o papel higiénico solidário advém, nada mais nada menos, de papel higiénico intensivamente utilizado na sua função primária.

O que realmente me intriga, é como raio terão conseguido unir de novo todas as diferentes porções de papel higiénico utilizado. Este processo não deverá ser nada fácil porque não existe um padrão de utilização de papel higiénico. Por um lado, há quem se consiga governar com um ou dois quadradinhos de papel higiénico, e por oposição, há quem coma muito feijoada.

Uma vez que a ONG trabalha com fundos muito limitados, certamente que o processo de produção da sua marca de papel higiénico, é conduzido de forma manual. Este facto, só por si, dá imediatamente a este papel higiénico, o rótulo de solidário. Tal como o papel, espero que todos vós se compadeçam da minha causa, pois ainda faltam 35 rolos...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Paciência

Há quinze anos atrás troquei um punhado de cartas com um parente. Passado tanto tempo, acredito hoje, que o termo de tal correspondência, se deveu exclusivamente a mim. Os estímulos da juventude condicionavam a minha vida como se eu já estivesse atrasado no tempo. Não sei o que perdi na infância e na adolescência, para que na juventude sentisse tal urgência em correr. A perspectiva do tempo, que então ignorava, era no entanto para o meu parente, uma declarada preocupação: "O maior óbice está no tempo que, como deves imaginar, no meu caso apresenta um saldo muito baixo".

Não há nada que eu admire mais do que um idoso. A sociedade, como em tantas coisas mais, adianta inúmeros critérios para a definição de idoso. A reforma ou o desconto nos bilhetes de comboio são dois bons exemplos. Estes indicadores poderão ser muito úteis para uma consciência colectiva, mas a definição de idoso, em minha opinião, apenas ao próprio diz respeito.
Eu fui o último familiar a viver com a mãe do meu parente. Numa determinada noite, despertei com um inaudível gemido de dor. O cenário que encontrei na sua casa de banho perturbou-me imenso mas fiz aquilo que tinha de ser feito. Ela chorava baixinho enquanto eu a limpava e a carregava de novo para a cama. No jantar do dia seguinte ela agradeceu-me e pediu-me desculpa. Custou-me mais isso do que a cena do dia anterior. Na casa de banho encontrei uma mulher deitada no chão, mas naquela cozinha encontrei uma idosa a despedir-se de mim.

Os mais velhos são os que mais sofreram. Viram partir grande parte dos seus afectos fossem estes de sangue ou por eles escolhidos. Muitos despediram-se até daqueles de que não era suposto. Folhas verdes arrancadas à árvore da vida, apenas, e só, porque sim. Os mais velhos são também os que mais perdem. Agora precisam de ajuda para carregar o saco das compras ou que alguém lhes recorde o nome dos filhos. Não conseguem mais controlar muitos dos seus gestos. O que é que move os idosos quando tudo lhes parece travar o caminho? A paciência poderá ser a resposta.

Para ser sincero, acredito que a paciência é uma faculdade exclusiva dos idosos. Os comportamentos mais tolerantes que se observam em idades mais tenras são meros laivos de paciência. Apenas um idoso consegue aguardar uma semana inteira por uma visita ou um telefonema. Muitos poderão já não reconhecer a identidade dos afectos, mas continuarão sempre à espera. O pai do meu parente dedicava horas intermináveis aos seus dois baralhos de cartas. O jogo da paciência era a sua companhia. Não sei se o meu parente terá herdado o gosto pelo jogo de cartas. Talvez não tenha tempo e, ainda hoje, aguarde ansiosamente, a carta que nunca lhe escrevi...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Prato do dia

Poucos minutos após a divulgação dos resultados das eleições primárias de ontem, dei por mim a pensar nos placares das autoestradas que nos indicam o preço dos combustíveis praticados nas diferentes estações de serviço. Em que é que nós condutores beneficiamos das informações sobre os preço dos combustíveis. Vamos por hipótese imaginar um condutor a caminho do Norte de Portugal pela A1. Poucos quilometro antes da estação de serviço de Aveiras terá a indicação sobre  o preço dos combustíveis aí praticado. O mesmo painel terá igualmente a informação relativa às duas bombas de gasolina seguintes. Apesar da velocidade elevada a que se circula na autoestrada, não passará a ninguém despercebido, que os preços dos combustíveis são iguais independentemente da estação de serviço. O que se observa de Aveiras a Antuã é por isso transversal a todas as outra autoestradas. A resposta à questão que coloquei parece-me por isso bastante óbvia: os ditos painéis não servem absolutamente para nada.

Uma vez que o preço do combustível é o mesmo, a selecção da estação de serviço como é que é feita? O cartão de desconto ou a higiene dos espaços, poderão ser critérios relevantes. A distância para a gasolineira será certamente muito importante, principalmente se o tanque de combustível se encontrar na reserva. Eu esforço-me por acreditar que o critério principal, é, na verdade, a comida. Deste modo poderemos finalmente dar uma real utilidade aos placares informativos. Em vez do preço dos combustíveis os painéis apresentariam o prato do dia de cada uma das estações. Se utilizarmos o mesmo condutor que referi anteriormente, este ficará assim a saber que dali a dois quilómetro haverá "bochechas estufadas", em Santarém "ervilhas com ovo escalfado" e que o prato do dia em Leiria será "filetes de pescada". Estas informações poderiam até funcionar como um tónico motivacional para os condutores mais sonolentos: abre-se o apetite, abre-se a pestana.


Os candidatos a primeiro ministro, à imagem do que as gasolineiras fazem com o preço dos combustíveis, não se distinguiram em termos das suas políticas. Se a minha proposta para os placares informativos tivesse sido aplicada às eleições primárias, talvez, pelo menos, tivéssemos ficado a saber como cada um gosta do bacalhau. A única coisa que realmente sabemos, e pegando novamente no peixe preferido dos portugueses,  é que um deles é hoje um “bacalhau com todos” enquanto que o outro, é uma “roupa velha”. Vamos lá ver se não acabam em “bolinhos”...

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Lado Negro

Ela está sentada à minha frente mas de costas voltadas para mim. Não imagino o que ela estará a estudar, mas consigo perceber inúmeros gráficos num livro aberto. Um marcador fluorescente amarelo sublinha as frases mais relevantes de uma sebenta que parece estar já bastante usada. Ela está demasiado debruçada sobre a mesa. Será por uma questão de postura ou um problema de visão? Impossível saber. Apesar de não lhe ver face, os seus gestos parecem traduzir uma certa ansiedade. Sim, ela está nervosa. Aposto que se tratará da repetição de um exame. Certamente não será a primeira vez que o fará.

Hoje a biblioteca está mais agitada que o habitual. As mesas estão praticamente todas preenchidas. É um claro sinal que o Verão terminou. Setembro é a época de recurso, os primeiros trabalhos de grupo, o retomar daquilo que se interrompeu nas férias. Há um ruído que preenche toda a sala de estudo. Cada mesa contribui com a sua parte. Eu próprio colaboro nesta peculiar canção urbana através do teclar descompassado deste texto. A música que se liberta dos meus auscultadores barra a entrada a todo este ruído. Basta olhar os gestos dos que me rodeiam para compreender o nível de agitação que se faz sentir.

Apesar de se encontrar numa das extremidades da sala de estudo, está claro que este barulho lhe é insuportável. A cada momento, volta-se para trás e prospecta toda a audiência em busca da origem do alvoroço. O seu olhar é o bramir do grito de fúria que tem de calar. Levanta-se e vai repreender um grupo de rapazes que partilha uma mesa. A batalha com o estudo parece dependente do sucesso da sua demanda pelo silêncio. Olha novamente para trás. Duas vezes, quatro vezes. O seu olhar é pólvora fulminante

Começo a ficar tão exasperado quanto ela. Para mim pouco me importa que esteja muito ou pouco barulho. Não consigo é suportar os seus movimentos. Apesar de estar focado neste monitor é impossível abstrair-me do que se está a passar mesmo à minha frente. Cada vez que ela se volta para indagar a sala, os nossos olhares esbarram de forma instintiva. Sete vezes, dez vezes. Neste momento ela poderia até ser a mulher mais bonita do mundo. Só quero que ela se vá embora ou que pare quieta de uma vez. Onze vezes, vinte vezes. Espero mesmo que ela reprove na porcaria do exame. Não suporto mais esta constância de movimentos na minha direcção.

Levanto-me com a intenção de educadamente a alertar para o quanto me está a incomodar. Não me apercebo que o meu espírito está já tomado pelo meu lado mais negro e não vou a tempo de evitar a tragédia.

"- Pare de olhar para trás. Daqui não leva nada. Sou um homem casado".

Não mais se mexeu.