sexta-feira, 14 de maio de 2010

Muitas mais perguntas haveria a fazer, mas a resposta seria sempre a mesma

Por que me preocupo tanto? Por que acho a água da piscina sempre fria? Por que tenho câimbras no pescoço? Por que tenho de continuar a negar o windsurf? Por que me custa tanto levantar? Por que tenho de ser eu a organizar sempre tudo? Por que sou capaz de ouvir a mesma canção repetidamente? Por que mastigo mais com o lado esquerdo? Por que vejo sempre o Nothing Hill? Por que desisto de correr tão facilmente. Por que continuo a não gostar de queijo? Por que digo tantos palavrões a jogar futebol? Por que me chamam velha ranhosa? Por que tenho as pernas tão tortas? Por que sou tão impaciente? Por que estou constantemente com o dedo no nariz? Por que quero ser sempre o último a falar? Por que corto a cebola em pedaços pequeninos? Por que passeio pela casa enquanto lavo os dentes? Por que nunca vejo a pressão dos pneus? Por que leio tantas vezes as coisas que escrevo? Por que nunca faço alongamentos? Por que durmo tão mal em hoteis? Por que comprei uns sapatos e só os usei uma vez? Por que adoro o cheiro dos gatos? Por que como sempre bacalhau no Restaurante Campino? Porque não tenho jeito para estacionar? Por que preciso de estar sozinho? Por que gosto tanto de azul? Por que fecho os olhos sempre que canto um fado? Por que me recordo sempre dos meus sonhos? Por que passo tanto tempo a matutar? Por que não tenho uma barba uniforme? Por que me entusiasmo tanto? Por que lido tão mal com injustiças? Por que não me atraso? Por que estou a escrever isto numa sexta-feira à noite? Por que não me deito no centro da cama? Por que nunca resisto a uma taça de serradura? Por que sei de cor músicas do Marco Paulo? Por que quero mudar o mundo? Por que não ponho açucar no café? Por que vou sempre à casa de banho a meio da noite? Por que tenho tantas saudades do futuro? Por que nunca andei à porrada? Por que gosto tanto de dramas?Por que é que o único livro que li mais de uma vez é o Principezinho? Por que me dou tanto?

Por que de outra forma não seria eu.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Duas caixas

A caixa de entrada do meu telemóvel encontra-se neste preciso momento com 168 mensagens. A mais antiga data de 26 de Abril de 2010. Certamente que desde esse dia muitas terão sido as mensagens recebidas que foram apagadas de imediato. O número de mensagens actual na caixa de entrada não reflecte por isso, o total de mensagens recebidas nos últimos 17 dias. Os conteúdos das mesmas são extremamente variados: bolas de queijo flamengo, resultado do Barcelona-Inter, alteração de planos de última hora, confirmação de carregamento, convites para tomar café...
Junto à janela do meu quarto tenho uma caixa. Não me recordo da última vez que a abri. Está simplesmente sentada no soalho como outra qualquer peça do mobiliário. Servindo por vezes até, como depositário de uma peça de roupa usada. Dentro dessa caixa acumulam-se muitas coisas distintas. Mas de todos os objectos que lá podemos encontrar há uns em especial que se destacam em termos de presença: cartas. De amigo, de amor. Escritas a tinta verde ou sem o carimbo dos correios. Em língua estrangeira ou com corações desenhados. Salpicadas de café ou com palavras que requerem hífen.
As sms são cada vez mais o veículo número um de comunicação da palavra escrita. A minha caixa do correio hoje em dia alimenta-se a folhetos de publicidade, contas para pagar e actas das reuniões do condomínio. A meu ver, uma dieta demasiado pobre. Mas são estas as recomendações dos nutricionistas de hoje em dia. Meia dúzia de sms diários e fica cumprida a pirâmide de alimentos.
Acabei de eliminar as 168 mensagens que tinha. É algo que faço com relativa frequência. Existe sempre uma ligeira hesitação inicial, mas nunca o deixo de fazer. Não me posso prender às mesmas, por mais alegria que elas me tenham dado. Sei que raramente voltaria a elas. Assim como raramente volto à minha torre do tombo. Apesar de tudo esta caixa acompanha-me sempre, pois afinal de contas é lá que vivem tantas palavras que requerem hífen...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Dias de clausura e liberdade

Senti-me imediatamente melhor assim que o meu pé esquerdo tocou o passeio. Busquei por entre as fachadas dos prédios o azul marinho que nesse dia fazia as vezes de céu. O vento frio do anoitecer definiu um sorriso nos meus lábios e recuperei o passo decidido que parecia haver perdido. Não procurava um local corpóreo. Procurava apenas o etéreo sabor da liberdade. Antes de sair daquela casa, sentia-me como uma gaivota perdida. Como se o perigo no mar me obrigasse à clausura de ficar em terra. Enquanto alguém tomava banho cruzei-me com 2 livros. Através das definições de liberdade de Gandhi e Rousseau e, da dramática expressão de um jovem alemão capturada numa fotografia a preto e branco, encontrei o a porta da saída. Mal me justifiquei por me ter ido embora. A justificação seria sempre demasiado confusa mas certamente que andaria nas redondezas do Fado sagitário: "Se me queres como sou não me queiras prisioneiro..."
Apanhei-me num salão de dança, assim que o dia a seguir chegou. Concentrei-me nos passos e nas indicações das bailarinas experientes. Por mais que tentasse não havia maneira de acertar nos tempos que a música pedia. Ainda noutro dia me tinham perguntado se eu tinha andado nas danças de salão. Na altura encarei isso como um elogio. Estou certo que tinha sido um elogio. Mas nesta tarde parecia pregado ao chão. A mesma sensação da noite anterior. Olhei os outros pares a rodopiar e inquiri as minhas companheiras sobre a nossa pobre actuação. Todas me mandavam estar simplesmente calado. Sosseguei a voz e tudo pareceu mais fácil. Cheguei a fechar os olhos e no abraço de uma mulher encontrei novamente asas de liberdade. A espaço, mas sempre liberdade. Fui para casa a pensar numa frase que ouvi numa noite: Tentamos conversar mas não resultou, até que começamos apenas a falar e tudo correu melhor.
Ao terceiro dia, fui molhar os pés ao oceano. Ofereci um afago a um cachorro em jeito de presente pelos seus já sete meses de vida. Pessoas que não conhecia deram-me um colete azul para vestir. Sentei-me nervosamente na areia à espera de uma chance para me estrear naquela modalidade. As minhas primeiras intervenções foram totalmente reféns de movimento, mas fui sempre agraciado com sorrisos e mais motivação. Ganhei confiança e os pés começaram a sair do chão. Corri com toda a minha velocidade e alguém decidiu arriscar o disco na minha direcção. Não permiti que o vento me tirasse a oportunidade e lancei-me pelo ar. Agarrei o disco como se fosse a coisa mais preciosa que alguma vez tinha tocado. Assim que aterrei no chão saudaram-me efusivamente pelo meu primeiro ponto. Com excepção de mim, todos concordavam que eu estava na área de marcação. E na liberdade da decisão deles, encontrei novamente a minha.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Três conversas ficcionadas que poderiam muito bem ser verdade

Rapariga 1 - Hoje estou piursa.
Amigo - Mas o que é que passou?
Rapariga 1 - Acreditas que ele não me diz nada desde domingo?
Amigo - É pá, mas hoje ainda só é terça-feira!
Rapariga 1 - Eu fui lanchar a casa dele no domingo e desde então que não sei mais nada.
Amigo - Desculpa? Foste lanchar a casa dele? Sozinha?
Rapariga 1 - Sim.
Amigo - Espera! Queres contar-me mais alguma coisa?
Rapariga 1 - Não se passou nada. Parece que não me conheces.
Amigo - Tu só o conheces há uns dias e vais assim a casa dele sozinha?
Rapariga 1 - Não te estou a acompanhar. Qual é o mal?
Amigo - Mal não tem nenhum, mas acho que acabaste de dar um tiro no pé.
Rapariga 1 - Tiro no pé? Que é que estás para aí a dizer??
Amigo - Basicamente como tu aceitaste ir a casa dele, é como se tivesses dito que estavas disponível para a acção.
Rapariga 1 - Estás a gozar!!! Achas que foi isso??
Amigo - Claro que foi. E como tu nada, ele agora não está para andar mais atrás de ti.
Rapariga 1 - Não posso acreditar. Vocês são todos assim?
Amigo - A grande maioria sim.
Rapariga 1 - Eu não acho normal


Amigo - Então como é que foi na sexta?
Rapariga 2 - Só te conto se prometeres não me partir a cabeça?
Amigo - Deixa-te lá de parvoíces e desembucha.
Rapariga 2 - Enrolei-me com aquele gajo.
Amigo - Tás a falar a sério? Oh pá...
Rapariga 2 - Tinha que acontecer. Era um capricho.
Amigo - Capricho são aqueles acepipes com pernas de carangueijo.
Rapariga 2 - Sabes como eu sou. Quando meto uma coisa na cabeça...
Amigo - E agora?
Rapariga 2 - Eu acho que ele atrofiou das ideias.
Amigo - Atrofiou? Como assim?
Rapariga 2 - Antes do que se passou nós tinhamos combinado ir passear no sábado.
Amigo - E como é que foi?
Rapariga 2 - Não aconteceu! Ele não me disse nada! Acabei por vê-lo à noite mas com o resto da malta.
Amigo - Sempre é alguma coisa!
Rapariga 2 - Estás parvo ou fazes-te?? Ele mora sozinho, ok? Depois do que se passou na sexta-feira seria normal ele dizer-me para ir a casa dele no sábado.
Amigo - Pois...
Rapariga 2 - Pois?? É isso que tens para dizer? Sabes muito bem como é que vocês são. Para quê ficar pelo aperitivo se podes ter o prato todo?
Amigo - Sim, lá isso é verdade...
Rapariga 2 - Eu não acho normal.


Amigo - E então? Estás ansiosa pelo encontro?
Rapariga 3 - Nem sei que te diga.
Amigo - Não te preocupes, pois vocês já se conhecem.
Rapariga 3 - Já nos conhecemos?? Nunca nos vimos!
Amigo - Está bem, mas têm falado milhões pela internet.
Rapariga 3 - Tenho muito medo disto, sabes?
Amigo - Mas porquê? Não há razão para isso.
Rapariga 3 - Acho que vai ser muito estranho estar pela primeira vez com uma pessoa de quem já sei tanto mas que nunca vi.
Amigo - Que disparate. Vocês efectivamente já se viram. Apenas falta a terceira dimensão.
Rapariga 3 - Ando mesmo nervosa com esta cena. Sabes que as minhas relações anteriores são diametralmente opostas a esta.
Amigo - Por isso é que deram no que deram. Agora estás a erguer uma coisa com base em muitos pilares distintos.
Rapariga 3 - Sabes que sou uma rapariga de acção...
Amigo - Tu, o Chuck Norris e o Rambo!!
Rapariga 3 - Eu não sei se tenho perfil para isto. Ele lá, eu cá...
Amigo - É pá calma caramba. Aproveita o que estás a viver e depois pensas nisso.
Rapariga 3 - Mas eu nunca o vi.
Amigo - Outra vez essa conversa? Diz isso a um cego.
Rapariga 3 - Eu não acho normal.