sexta-feira, 4 de julho de 2014

Santa Luzia

A despedida de solteiro de um dos meus grandes amigos incluiu uma peregrinação ao Santuário de Santa Luzia em Viana do Castelo. O objectivo não foi uma tentativa de expiação de eventuais pecados cometidos, mas apenas e só, uma pausa no programa habitual das nossas despedidas de solteiro: um grelhador, peças de carne de porco, bebidas várias. A caminhada não foi muito longa uma vez que a casa alugada para o efeito, se situava numa freguesia nas proximidades da cidade. Para ser mais exacto, a peregrinação constituiu-se pelos poucos metros que distava o grelhador do carro que nos conduziu monte acima e pelos degraus que davam acesso ao Santuário, junto do quais, o carro ficou aparcado. Admito que não seja uma peregrinação da qual me possa orgulhar muito, mas ao menos, ainda cá estou para escrever esta introdução. Não sei o que se poderia ter passado no meu fígado se naquela tarde de sábado, ao invés de irmos ao santuário, tivéssemos continuado a comer carne de porco. Se fosse frango ainda vá que não vá, mas porco grelhado, é cirrose certa.

Santa Luzia encontrou-me em ébria convalescença, e talvez por isso, aquilo que mais me impressionou, não foi a solenidade inerente ao culto e à fé, mas sim, a vista que se consegue do zimbório da basílica. Olhei principalmente para Sul e tenho a certeza que consegui identificar outro Santo: Bartolomeu do Mar. Aquele que me ensinou a nadar na sua praia. Os mais crentes afirmam até, que foi ele que me salvou. No mínimo, não posso ignorar, que as graves alergias que sofria na meninice desapareçam poucos dias após o banho santo, o galo preto e as três passagens por debaixo do andor de São Bartolomeu do Mar. Mas de uma coisa tenho a certeza absoluta: se não fossem os Verões intermináveis a praticar nas águas daquela praia, nunca me teria safado, quando um dia, uma sorrateira corrente, me tentou levar com ela, por entre um solitário litoral dos arredores de Nha Trang no Vietname. No topo da basílica de Santa Luzia recordei ambos os areais. O areal da confiança que preenchia o menino ao engolir as primeiras águas salgadas sob o olhar atento da família e o areal do medo, que inundava o homem ao debater-se contra a forte correnteza sob um silêncio profundo de solitude.

Ontem subi a um sétimo andar. Depois de um terno abraço, conheci um pequeno templo que até então ignorava. Depois de inúmeros dias passados naquele sétimo andar, finalmente me apercebo da existência daquele acolhedor espaço. Não é no entanto de estranhar, pois o que lá tinha ido fazer nas vezes anteriores, foi tudo menos andar a conhecer a casa. Muito poderia dizer sobre isso, mas fico-me pelo malabarismo, pois afinal de contas, foi lá que percebi que poderia ter feito carreira como malabarista. Eu e todos os habitantes que comigo partilharam aquele sétimo andar. E só quem tentou um dia fazer malabarismo percebe que o segredo é tratar todas as bolas de igual forma. Mesmo que uma pareça presa à mão e a outra vagabunde pelo ar.

Ambos os areais são essências à nossa existência. Podemos gostar de olhar mais para um, tal como eu o fiz no topo da basílica. Não podemos é ignorar o outro areal, porque na vida, tal como no malabarismo, o segredo está no movimento continuo. Em algum momento iremos necessariamente tocar todos os diferentes areais. E no curto espaço de tempo que um destes areais se encontre na nossa mão, teremos de tirar o máximo partido desse momento, antes de o ver elevar-se novamente no ar.

Aquele sétimo andar é torneado a enormes janelas. A vista é quase tão bonita como a do zimbório do santuário em Viana do Castelo. E também lá vive uma Luzia. Santa não sei, Wittmann, de certeza. Não existe peregrinação melhor do que a ida àquele sétimo andar. A seguir a esta só mesmo todas as outras romarias tradicionais...desde que antecedidas de peças de carne de porco...para lamento do meu fígado..

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O fim do mundo

A contagem decrescente para o fim do mundo está em marcha. Isto de se esperar uma eternidade pela concretização da profecia Maia dá cabo dos nervos a qualquer um. Felizmente, o mundo está repleto de impacientes, que em inúmeras ocasiões ao longo da história, tentaram fazer pelas próprias mãos, aquilo que estava traçado pela antiga civilização do continente americano. De tudo se tentou um pouco, desde o homem gordo que vindo do céu pousou em terras de samurais até ao homem magro de tez de caril que perdeu premeditadamente a voz. Facto é que nada resultou, e por isso, as atenções voltam-se agora para sexta-feira.
Não sei de que forma o fim do mundo se apresentará. Sei no entanto a forma como eu me apresentarei ao fim do mundo. Não tive que pensar muito no assunto, pois na verdade, tudo se resume ao advérbio “já”. Já saltei de pára-quedas, já copiei num exame, já comi esquilo. Já brilhei num karaoke, já chorei num comboio, já rapei o cabelo. Já matei um rato, já mudei uma fralda, já fiz surf. Já li uma carta de amor, já vi o peixe-palhaço, já apanhei um soco. Já me mascarei de pirata, já discuti com um padre, já bebi absinto. Já escrevi uma música, já vendi calendários, já enterrei um golfinho. Já arranjei grelos, já dormi na floresta, já insultei um árbitro. Já andei de bicicleta, já dancei em cima da coluna, já apanhei amoras. Já fiz batota, já vi o sol nascer no mar, já dei os pêsames a alguém. Já engarrafei vinho, já corri de madrugada, já li em casamentos. Já dei aulas a crianças, já lambi selos, já furei um dente. Já bati com o carro, já dei uma esmola, já lavei o chão. Já fiz sauna, já pedi um autógrafo, já estive em antigos campos de concentração. Já celebrei a liga dos campeões, já cantei janeiras, já fiz uma radiografia. Já tomei banho com a água da chuva, já saltei fogueiras, já tive piolhos. Já arranquei uma unha, já dancei kizomba, já construi uma jangada. Já… .
Ao contrário de muitos homens, acredito num fim do mundo suficientemente paciente para escutar-me até ao meu último e derradeiro “já”. A lista dos “já” é dramaticamente finita pois está limitada a praticamente 33 anos de existência. Espero no entanto, que após o meu último “já”, o fim do mundo me questione se tenho algo mais a acrescentar. É que a minha lista dos “ainda” poderá adiar a profecia por uns tempos...


quinta-feira, 26 de julho de 2012

A velha gelataria


Abraçado a Ela, entrei. Um longo dia no areal brilhava na nossa tez morena. Tudo naquela pequena vila sinalizava a estação do calor. As esplanadas repletas de conversas, as toalhas garridas nas varandas, os sacos de carvão à venda. Deparei com a velha gelataria encerrada. A bolacha caseira e as bolas de amora assim perdidas. Uma morte anunciada a cada Verão pelo já descolorado “Passa-se” que pendia na janela. Portas trancadas e ausência de sinais vitais. Disse a mim próprio que talvez me tivesse enganado na rua numa tentativa de suavizar a minha desilusão. Mas não havia dúvidas que era aquela a esquina dos meus gelados preferidos.
A vila estava agora diferente da que recordava. Claramente mais pobre. A gelataria era a alma daquela terra. Como o coliseu em Roma, os leões no Serengeti, o caril na Índia. Ela que me abraçava, ficou também mais pobre, privada dos sabores que eu tanto lhe tinha prometido. A pequena vila pulsava agora das novidades que aí se tinham estabelecido:  o padeiro alemão,  a nova pensão, a loja em que entrei abraçado a Ela. Na montra plantada em frente à antiga gelataria cintilavam diferentes artigos de Verão: os colares e as pulseiras, os óculos de sol e os chapéus, as túnicas e os chinelos. Talvez a localização da loja tivesse sido decidida a pensar em mim. Como que um abraço à melancolia de todos aqueles que encontravam a velha gelataria encerrada. A loja convidava a entrar, não tanto pelo que podíamos lá dentro encontrar, mas por um qualquer equilíbrio magnetizador em que tudo se achava. Abraçado a Ela, aproveitei a oportunidade para comprar uns chinelos novos. Nem a melhor recauchutagem poderia acudir aos chinelos que calçava. Seis anos de existência e meio mundo calcorreado, tornavam óbvia a fidelidade à marca. Optei por um modelo exactamente do mesmo formato. Não havia por isso quaisquer dúvidas em relação ao tamanho. Em relação aos chinelos que suportavam o peso do meu corpo pela última vez, só se encontravam duas diferenças: a cor e o estado em que se encontravam. Apesar de todas as certezas (marca, modelo e tamanho) decidi experimentar os novos chinelos. Uma prova dos nove que se revelou obviamente desnecessária pois os chinelos serviam na perfeição. A única barreira que ainda impedia que os novos chinelos encontrassem morada imediata nos meus pés era acertar as contas com a funcionária da loja. Enquanto tirava o dinheiro da carteira, Ela com quem entrei abraçado na loja, perguntou: “Vais mesmo levar esses chinelos?”. “Claro que sim”, respondi eu. Ela anuiu com um “Ah, ok”. Vi uma certa incredulidade na sua expressão e inquiri-lhe os pensamentos. “É que os chinelos não te servem. São pequenos.”. Se alguém conhecia os meus pés, esse era eu. Já estava preparado para lhe dizer - “Estás ver como são os outros?” - quando enfiei os dedos nos chinelos que me deu a experimentar. Apenas consegui verbalizar um “Obrigado” porque aquele sim, era o meu tamanho.
Saí da loja abraçado a Ela e sorri para a velha gelataria uma última vez. Desta vez mais rico do que quando cheguei, pois afinal de contas, agora sabia um pouco mais sobre mim próprio.  E foi por elas que o descobri. Pela velha gelataria e por Ela que me abraçava…

terça-feira, 24 de julho de 2012

A casa de banho gourmet


Hoje falaram-me da existência de uma espécie de casa de banho gourmet. Pelo pagamento de uma modesta tarifa (necessidade incluída no preço) poderemos ter assim acesso a toda uma experiência sensorial. O salmão com alcaparras conseguiu, ainda que por uma breve vantagem, manter a minha atenção confinada no almoço, e por isso, os pormenores sobre esta casa de banho tiveram de esperar pelo café pós-prandial. As nuvens com aroma a grão torrado ainda se desprendiam da chávena quando descobri toda uma série de artigos a fazer referência a “The Sexiest WC on Earth”. Limitei o meu interesse à informação disponibilizada na primeira página do motor de pesquisa. Certamente que esta casa de banho terá os seus créditos e que merecidamente deverá constar do roteiro turístico da cidade. Não ponho isso em causa e aproveito desde já para desejar o maior sucesso aos seus criadores e momentos bem passados a todos os seus visitantes. O que acontece é que eu já tenho bem claro sobre qual a casa de banho mais sexy do planeta, e por isso, não estou interessado em investir o meu tempo nesta nova atracção. Arrisco-me a ficar para sempre na ignorância, mas como em tudo na vida, temos de tomar as nossas opções e arcar com as devidas consequências.
Encontrei um dia almoço nos arrabaldes do Hospital de Évora. Recordo-me perfeitamente que pedi o prato errado. Não que este estivesse mau, mas porque o que efectivamente me apetecia era a iguaria que constava em quarta posição da lista de pratos do dia. A sofreguidão dá nesta coisas e só após umas quantas azeitonas e fatias de pão, me apercebi da precipitação que tinha cometido. Conta paga e é tempo de regressar a Lisboa, mas nunca antes, de uma actualização da função renal. A casa de banho era do género minimalista: uma retrete, um lavatório e uma toalha. Até aqui nada de novo, não é verdade? Acontece porém que as paredes encontravam-se repletas de posters e fotografias de mulheres seminuas. Sobre diferentes paisagens e nas mais diversas poses. É sempre arriscado rir quando se urina de pé, mas não consegui conter a minha alegria. Pensei em inúmeras motivações que poderiam justificar tal decoração, mas algo muito mais importante animava a minha mente: “Como será o WC feminino?”. Uma curiosidade infantil instalou-se em mim sem que eu tivesse oportunidade de a negar. Recordo-me de lançar os olhos pelo balcão do restaurante antes de me atirar para dentro do WC feminino. Poucos segundos bastaram para conhecer a verdade: uma retrete, uma lavatório, uma toalha e inúmeros posters de homens seminus. Saí do restaurante e, em cima da minha mesa, a maior gorjeta que deixei na vida…