quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pressa de Viver à Pressa

Tenho pressa de viver, mas não quero viver à pressa. Por vezes tenho tanta pressa de viver, que não o consigo fazer sem ser à pressa. E de pressa em pressa a vida corre sempre depressa.

Numa noite de filme visitei uma livraria. Encontrei um livro de culinária de nome Caril. Apesar de ter jantado bem, comecei rapidamente a salivar. As descrições e fotografias de tais iguarias eram por de mais sabororas. O resultado pós-saliva não poderia ter sido mais simples:

- "É para oferecer?"
- "Não. É mesmo para consumo próprio."

A minha dispensa tem agora um aroma a outra paragens. O colorau e a noz-moscada andam até com cara de amuados. Estavam habituados a ser dos primeiros a ir namorar as panelas e não é fácil ter de ceder o lugar a novatos como o cardamomo e a corcuma.
Ainda só fiz três cozinhados do livro. Tenho ambição de fazer todos os pratos. Aqueles que requerem carne de cabra velha posso sempre oferecer aos meus inimigos. A ter inimigos, que estejam sempre bem nutridos, ou não vá isso servir de desculpa para a pouca qualidade das suas malvadezas.
A família anda deliciada com estes cozinhados. Na verdade, alguns dos meus familiares, veriam com bons palatos a possibilidade de nos juntarmos todos os fins de semana à volta de uma panela a fumegar de sabor monhé.
Paralelamente aos fantásticos comentários do resultado da minha cozinha, ocorrem veementes críticas relacionadas com a manufatura: "não vejo o que acrescenta teres de começar por grelhar", "porque não utilizas apenas peitos em vez do frango inteiro", "fazer a marinada de manhã chega perfeitamente".
A pressa de comer à pressa...ou muito mais do que isso...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A ponte do desconhecido

Muitas vezes me questiono sobre a identidade dos meus leitores. Na verdade conheço alguns, não fossem eles meus familiares ou amigos de longa data. Creio no entanto que estes estão em minoria no grupo de pessoas que assiduamente visita este espaço. Pergunto-me por isso sobre quem realmente me acompanha.
É incrível pensar que existem estranhos que me visitam. Alguns deixam marcas da sua passagem em comentários mais ou menos pessoais. Outros apenas escutam as palavras que digo, mesmo sem nunca terem ouvido o tom da minha voz. Não sei o que cada um por aqui encontra e acima de tudo, não sei aquilo que cada um procura.
Eu efectivamente apenas acompanho um blog. Para além de amigo, o autor desse blog é uma pessoa por quem eu facilmente abdicaria a minha vida. Não por tudo o que me tem dado ao longo destes já muitos anos de convivência, mas acima de tudo, por ser alguém que admiro profundamente. Revejo-me, divirto-me e questiono-me com tudo aquilo que ele escreve. Estas poderiam ser razões mais do que suficientes para eu acompanhar as coisas que ele vai dizendo. Porém, a razão principal para eu o seguir neste meio de expressão, é o prazer do peso da história. É conhecer de perto os caminhos virtuosos e tortuosos que levaram a tais textos. Lambi algumas das suas feridas, partilhei do seu estado de graça, aprendi com as suas escolhas. Conheço-o demasiado bem para ter a audácia de lhe dizer "conheço a mulher da tua vida". Ainda ontem estivemos juntos a comer pão enchumbado em óleo. Falamos todos os dias e mesmo assim cumpro com fidelidade o ritual de ir ver se escreveu alguma coisa nova. Para me deliciar com mais uma digestão em forma de palavras, de tudo aquilo que ele vai acumulando enquanto habitante do planeta Terra.
Cada qual terá as suas motivações para seguir as coisas que escrevo. - O que é que vocês desconhecidos, vêm aqui fazer? Eu não tenho o direito de fazer esta pergunta, mas já a fiz! Os desconhecidos que me visitam criaram uma ponte entre eles e mim. Uma ponte que eu não posso atravessar porque eu não a consigo visualizar. E eles podem sempre cá vir ver-me. Não me parece muito justo, mas ao fim ao cabo, é sempre bom ter visitas...

quarta-feira, 24 de março de 2010

A pouco e pouco

Acordar não é de todo uma tarefa fácil. Bom, na verdade, acordar até é simples. Afinal de contas é um processo natural. O problema é acordar a uma hora previamente definida! Não temos a possibilidade de recorrer diariamente a formas agradáveis de despertar tais como: o berbequim das obras na cozinha do vizinho do lado, o sapateado de salto agulha da vizinha de cima ou a gritaria do bebé de 12 anos da vizinha de baixo. A única solução é realmente o despertador. O Rádio Am/Fm com alarme tem caído em desuso. As luzes vermelhas psicadélicas e o ruído de fundo da corrente, podem ter sido a justificação para este declínio. Ou então as pessoas simplesmente deixaram de acreditar que um dia alguém lhes telefonaria do programa Jogo da Mala da Rádio Renascença. Como agora não tenho telefone fixo, deixei infelizmente de ouvir esta mítica rádio. Optei assim por me modernizar e passar a utilizar o alarme do telemóvel. Ao longo deste últimos anos não faço ideia de quantas vezes mudei a música para despertar. A música perfeita é meio caminho andado para um vigoroso abandono do vale dos lençois.
As 3 últimas músicas que fizeram o papel de galo de campo foram:

Adágio para cordas - Esta é a música principal do filme Platoon. Como a música é um bocado deprimente e recorda os horrores da guerra, nada melhor que saltar da cama e ver que a luz que emana da janela, não é a dos clarões de bombas a explodir.
Glamourosa - Ouvi esta música milhões de vezes nas quentes madrugadas brasileiras. Como eu regressava ao hotel para o pequeno almoço, esta música dava-me sempre energia para começar o dia pronto para sambar.
Sai-usi-uma - Esta música timorense lembra-me sempre os meus putos do Santa Bakhita e de como eles sempre acordavam antes de mim. Sempre me soudavam com um enérgico "Bom dia irmão João" e essa lembrança sempre me pôs bem disposto.

Hoje de manhã descobri na letra de uma canção que a melhor forma de acordar nada tem a ver com música. Passo a partilha esta enorme descoberta com todas as pessoas que padecem da mesma maleita que é a preguicite aguda.

"Vá lá, são 7 e meia amor e tens de ir trabalhar. Acordas-me com um beijo e um sorriso no olhar. E levantas-me da cama depois tiras-me o pijama. Faço a barba e dá na rádio o José Cid a cantar"

Aqui está!! Nada mais simples do que isto. Tendo em conta que pijama é coisa de maricas e que já não faço a barba há 3 semanas, está visto que vou continuar à procura da música perfeita para acordar! A pouco e pouco lá chegarei.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Palavras fortes

Não sei qual é a origem dos palavrões. Sei apenas que não consigo viver sem eles. Há quem os categorize de gíria. Eu prefiro chamar-lhes de palavras fortes. Não consigo imaginar a minha vida sem palavras fortes. Alguns episódios da minha existência, deixariam de fazer qualquer sentido, se não tivessem sido empregues palavras assim. Os mais conservadores seguramente me acusarão de utilizar palavrões em vez de vírgulas. Em certos ambientes é o que na verdade acontece. Mas apesar de as palavras serem as mesmas, isso não significa que queiram sempre dizer a mesma coisa. Conheço muito bem o dicionário das palavras fortes. Na verdade, é das poucas coisas sobre as quais eu poderia ser considerado como uma sumidade. A razão está associada ao número de vezes que as disse e que as ouvi com verdadeira intenção. A intenção das palavras fortes não é de todo aquela que advém dos seus sinónimos directos. Eu pelo menos não pretendo mandar ninguém, fazer amor consigo próprio, para o orgão sexual masculino ou para as fezes. E muito menos mandar a pessoa para a sua mãe injuriando-a em simultâneo.
As palavras fortes são marcos vivos de emoções. Assinalam desgostos e paixões, derrotas e conquistas, desilusões e surpresas. Usados correctamente funcionam como que balões de oxigénio, janelas abertas, nós de gravata desapertados. O alívio pode não ser muito, mas há qualquer coisa de verdadeiro nestas palavras.
Não sei até que ponto sou um bom utilizador destas palavras. Mas por vezes penso nelas. Nas que disse e nas que ouvi. Recordo emoções...É pá já são 19h20!! Foda-se que já estou atrasado para o futebol.