No próximo fim de semana vou fazer um "Bacalhau à lagareiro". Tomei esta decisão no passado sábado enquanto caminhava ao longo da praia. Os armados em sensíveis dirão que o passeio marítimo merece ser honrado com pensamentos mais eloquentes. Eu sei que sim meus queridos, mas a diarreia também pode aparecer enquanto se assiste a um espectáculo de ópera, não é? O que é facto é que enquanto me dirigia para o courts de squash e me cruzava com toalhas estendidas, namorados a apanhar beijinhos e crianças a jogar à apanhada, apenas conseguia lamber os beiços a pensar numa bela posta de bacalhau à lagareiro. O processo mental de tomada de decisão foi bastante simples: “Apetece-me comer bacalhau à lagareiro. Vou cozinhar bacalhau à lagareiro”.
Claro que os armados em modernos considerarão patético eu ter decidido com uma semana de avanço aquilo que irei cozinhar. Mas é exactamente por isso meus fofos que vocês têm de ir ao supermercado às 13h35 porque perceberam às 13h30 que afinal precisam de bechamel ou de champignons.
A minha mãe tratou de me fazer o briefing de como fazer a dita iguaria. Tive algumas dúvidas no atalho que me sugeriu para a confecção das batatas, mas acabei por registar tudo direitinho na minha cabeça. Como nem toda a gente pode privar com uma cozinheira 5 estrelas Michelin, fui pesquisar à internet que gato por lebre anda o povão a comer, no que toca a bacalhau à lagareiro. E não é que a sexta referência na internet no que toca a este prato vem do site do Jamie Oliver? Mesmo que não leve bacalhau, olive oil é certinho...
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Lucidez calórica
Juntei-me recentemente a um grupo de marginais: os magros! Não foi uma gravidez programada, mas o que é facto é que aconteceu, e estou bastante satisfeito com isso. A Ásia libertou-me de 6 Kg. Não há nada de muito anormal neste acontecimento. Haverá certamente alguma lei da física que explique que para determinadas coisas poderem entrar, outras têm necessariamente de sair. Uma das grandes aquisições da época passada é sem dúvida alguma, o reforço do sentido da urgência, de reduzir determinadas necessidades. Há muito que o Jorge Palma me ilumina com as suas palavras : somos todos escravos do que precisamos, reduz as necessidades se queres passar bem. Assistir à fome in situ é um bom fermento para a interiorização deste caminho. Para o fazer, não precisei de romper o acordo de fidelidade que tenho com as emoções do paladar. Na verdade, esta aliança ficou ainda mais forte, pela adição dos inúmeros sabores diferentes que pude conhecer.
O que é realmente bizarro para muita gente, é o facto de já terem passado 10 meses desde o meu regresso, e não haver forma de eu ultrapassar os 62Kg. A pressão em redor do meu peso começa a atingir níveis preocupantes. Eu neste momento encontro-me em alerta laranja, pois a crer pelas minhas fontes, poderei a qualquer momento, ser alvo de uma tentativa de engorda. As embalagens de Nestum Figos depositados à porta de minha casa são um claro indicador do escalar do problema.
Enquanto mantenho a lucidez calórica e nada de grave me acontece, sinto ser meu dever, partilhar com a comunidade magra, como cheguei a esta situação limite. O meu problema não foi efectivamente o meu peso, mas sim a forma como reagi perante os comentários sobre o mesmo. São incontáveis as vezes que tive de ouvir "estás muito magro, não tens cu para as calças, qualquer dia desapareces". Desculpava-me quase sempre do mesmo modo: "é do cabelo rapado, é o meu estilo asiático, sinto-me bem assim". As minhas respostas eram sempre insatisfatórias e a conversa era invariavelmente rematada com: "agora comes rabanadas de vento, as tuas pernas estão dois palitos, pareces um tuberculoso". A boa educação obrigava-me a assentir com um humilde sorriso. É importante no entanto referir, que estes comentários menos simpáticos foram todos proferidos por mulheres. Como para os homens tudo se pode resumir a um jogo de futebol, nada melhor do que ter como companheiro de equipa, um jogador que mais parece uma gazela à solta.
Coincidiu encontrar uma grande amiga minha num dia em que o habitual jogo de futebol tinha sido cancelado. A minha disposição não era das melhores, e assim que ela disparou à queima-roupa, " - Tu estás só pele e osso!", ripostei de imediato"- E tu estás só carne e gordura".
As minhas acções falam por mim, e não é por isso de estranhar, que tenha a soleira da porta, ocupada por ameçadores pacotes de Nestum Figos. E tudo poderia ter sido evitado caso o jogo de futebol não tivesse sido cancelado...
O que é realmente bizarro para muita gente, é o facto de já terem passado 10 meses desde o meu regresso, e não haver forma de eu ultrapassar os 62Kg. A pressão em redor do meu peso começa a atingir níveis preocupantes. Eu neste momento encontro-me em alerta laranja, pois a crer pelas minhas fontes, poderei a qualquer momento, ser alvo de uma tentativa de engorda. As embalagens de Nestum Figos depositados à porta de minha casa são um claro indicador do escalar do problema.
Enquanto mantenho a lucidez calórica e nada de grave me acontece, sinto ser meu dever, partilhar com a comunidade magra, como cheguei a esta situação limite. O meu problema não foi efectivamente o meu peso, mas sim a forma como reagi perante os comentários sobre o mesmo. São incontáveis as vezes que tive de ouvir "estás muito magro, não tens cu para as calças, qualquer dia desapareces". Desculpava-me quase sempre do mesmo modo: "é do cabelo rapado, é o meu estilo asiático, sinto-me bem assim". As minhas respostas eram sempre insatisfatórias e a conversa era invariavelmente rematada com: "agora comes rabanadas de vento, as tuas pernas estão dois palitos, pareces um tuberculoso". A boa educação obrigava-me a assentir com um humilde sorriso. É importante no entanto referir, que estes comentários menos simpáticos foram todos proferidos por mulheres. Como para os homens tudo se pode resumir a um jogo de futebol, nada melhor do que ter como companheiro de equipa, um jogador que mais parece uma gazela à solta.
Coincidiu encontrar uma grande amiga minha num dia em que o habitual jogo de futebol tinha sido cancelado. A minha disposição não era das melhores, e assim que ela disparou à queima-roupa, " - Tu estás só pele e osso!", ripostei de imediato"- E tu estás só carne e gordura".
As minhas acções falam por mim, e não é por isso de estranhar, que tenha a soleira da porta, ocupada por ameçadores pacotes de Nestum Figos. E tudo poderia ter sido evitado caso o jogo de futebol não tivesse sido cancelado...
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Um café na cidade
Nesta cidade há um café que permanece. Todas as noites se cumpre o mesmo ritual: correm-se as cortinas, tranca-se a porta, baixam-se as luzes. Os clientes são educadamente convidados a sair, os amigos tomam todo o espaço que lhes pertence. Puxam-se cigarros que nunca poderiam ser acesos, riscam-se pentes de sueca em blocos de notas, servem-se bebidas que não estão à venda. Existe todo um acenar de personalidade nestes gestos. A génese da identidade deste café reside nestes momentos de cumplicidade. No voltar à base, na desconstrução da personagem.
Pouco importa se este convívio se resume a breves fugazes instantes. Está lá tudo na mesma, como numa qualquer semente. O ar fica impregnado por um aura de reconhecimento. E é esta brisa que dia após dia cativa os seus clientes.
Por vezes pergunto-me se serei como este café. Cerrando a porta aos clientes deixando-me ficar na familiaridade dos afectos, referências e convicções. Purgando o lixo diário de interacções, no conforto de saber quem realmente sou. Vivendo constantemente suportado por estas terríveis forças de segurança. Cedendo a este poderoso magnetismo invisível que me mantém igual. Passando o tempo a fazer a manutenção das fundações e alicerces. Tudo assim no gerúndio.
Olho para mim e apenas vejo um projecto. Não chego sequer a ser uma obra inacabada. Conheço apenas um leve esboço daquilo que poderei ser. Talvez eu seja um barro difícil de moldar. Mas sou também o oleiro responsável por me criar. E se a decisão me cabe a mim, não quero ser como esse café na cidade...
Pouco importa se este convívio se resume a breves fugazes instantes. Está lá tudo na mesma, como numa qualquer semente. O ar fica impregnado por um aura de reconhecimento. E é esta brisa que dia após dia cativa os seus clientes.
Por vezes pergunto-me se serei como este café. Cerrando a porta aos clientes deixando-me ficar na familiaridade dos afectos, referências e convicções. Purgando o lixo diário de interacções, no conforto de saber quem realmente sou. Vivendo constantemente suportado por estas terríveis forças de segurança. Cedendo a este poderoso magnetismo invisível que me mantém igual. Passando o tempo a fazer a manutenção das fundações e alicerces. Tudo assim no gerúndio.
Olho para mim e apenas vejo um projecto. Não chego sequer a ser uma obra inacabada. Conheço apenas um leve esboço daquilo que poderei ser. Talvez eu seja um barro difícil de moldar. Mas sou também o oleiro responsável por me criar. E se a decisão me cabe a mim, não quero ser como esse café na cidade...
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Terminal 2
A minha vida não cabe nestes textos que por aqui escrevo. Tento mostrar-me ao mundo por entre palavras aprumadas e frases a preceito, mas, tudo aquilo que escrevo, é apenas uma ténue imagem de quem sou. Aquilo que eu gostaria de partilhar, sentir-se-ia demasiado abafado nos meus parcos recursos de língua portuguesa. Nunca conseguiria decantar aqui todos os sucos que jorro a cada dia. Talvez a gramagem do filtro da censura interior seja demasiado elevada. Ou então, talvez existam sensações, que apenas eu consiga absorver. A tentativa de as reproduzir é por isso, apenas um exercício de recreio, não havendo qualquer esperança objectiva que alguém as consiga verdadeiramente interiorizar.
Esta manhã quando me aproximava do aeroporto o taxista perguntou com voz de madrugada: “T1?”. Eu respondi com energia moderada: “T2”. Há medida que o carro procurava lugar para travar definitivamente, dei por mim a estranhar o pouquíssimo alarido em volta do terminal. As minhas suspeitas aumentaram quando o taxista diz “acho que é aqui”. Acertei as contas com o sujeito, passei as portas automáticas e encarei o monitor das partidas. O meu voo não se encontrava lá. Fui ver o que estava escrito no comprovativo do bilhete electrónico e não havia qualquer margem para dúvidas: T1. Sei perfeitamente o que me conduziu ao T2. Pareceu-me ouvir os altifalantes daquele terminal anunciar: Ladies and gentlemens João is back. Fiz uma pequena vénia aquelas paredes e dei caminho aos meus passos.
Já estive em muitos terminais de aeroporto. Poderia contar as vivências de todos eles com excepção do T2. A sua história nunca caberia aqui. Afinal de contas, é de vida que falo...Revi-me enquanto João, agora que sou Bulak. O mesmo pulsar nervoso e inquieto, mas um sangue muito mais fluído e preenchido...ou não fosse o mundo capaz de nos moldar...e de podermos ser felizes...
Esta manhã quando me aproximava do aeroporto o taxista perguntou com voz de madrugada: “T1?”. Eu respondi com energia moderada: “T2”. Há medida que o carro procurava lugar para travar definitivamente, dei por mim a estranhar o pouquíssimo alarido em volta do terminal. As minhas suspeitas aumentaram quando o taxista diz “acho que é aqui”. Acertei as contas com o sujeito, passei as portas automáticas e encarei o monitor das partidas. O meu voo não se encontrava lá. Fui ver o que estava escrito no comprovativo do bilhete electrónico e não havia qualquer margem para dúvidas: T1. Sei perfeitamente o que me conduziu ao T2. Pareceu-me ouvir os altifalantes daquele terminal anunciar: Ladies and gentlemens João is back. Fiz uma pequena vénia aquelas paredes e dei caminho aos meus passos.
Já estive em muitos terminais de aeroporto. Poderia contar as vivências de todos eles com excepção do T2. A sua história nunca caberia aqui. Afinal de contas, é de vida que falo...Revi-me enquanto João, agora que sou Bulak. O mesmo pulsar nervoso e inquieto, mas um sangue muito mais fluído e preenchido...ou não fosse o mundo capaz de nos moldar...e de podermos ser felizes...
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