A despedida de solteiro de um dos meus grandes amigos incluiu uma
peregrinação ao Santuário de Santa Luzia em Viana do Castelo. O objectivo não
foi uma tentativa de expiação de eventuais pecados cometidos, mas apenas e só,
uma pausa no programa habitual das nossas despedidas de solteiro: um grelhador,
peças de carne de porco, bebidas várias. A caminhada não foi muito longa uma
vez que a casa alugada para o efeito, se situava numa freguesia nas
proximidades da cidade. Para ser mais exacto, a peregrinação constituiu-se pelos
poucos metros que distava o grelhador do carro que nos conduziu monte acima e
pelos degraus que davam acesso ao Santuário, junto do quais, o carro ficou
aparcado. Admito que não seja uma peregrinação da qual me possa orgulhar muito,
mas ao menos, ainda cá estou para escrever esta introdução. Não sei o que se
poderia ter passado no meu fígado se naquela tarde de sábado, ao invés de irmos
ao santuário, tivéssemos continuado a comer carne de porco. Se fosse frango
ainda vá que não vá, mas porco grelhado, é cirrose certa.
Santa Luzia encontrou-me em ébria convalescença, e talvez por isso, aquilo
que mais me impressionou, não foi a solenidade inerente ao culto e à fé, mas
sim, a vista que se consegue do zimbório da basílica. Olhei principalmente para
Sul e tenho a certeza que consegui identificar outro Santo: Bartolomeu do Mar.
Aquele que me ensinou a nadar na sua praia. Os mais crentes afirmam até, que
foi ele que me salvou. No mínimo, não posso ignorar, que as graves alergias que
sofria na meninice desapareçam poucos dias após o banho santo, o galo preto e
as três passagens por debaixo do andor de São Bartolomeu do Mar. Mas de uma
coisa tenho a certeza absoluta: se não fossem os Verões intermináveis a praticar nas
águas daquela praia, nunca me teria safado, quando um dia, uma sorrateira corrente,
me tentou levar com ela, por entre um solitário litoral dos arredores de Nha
Trang no Vietname. No topo da basílica de Santa Luzia recordei ambos os areais.
O areal da confiança que preenchia o menino ao engolir as primeiras águas
salgadas sob o olhar atento da família e o areal do medo, que inundava o homem
ao debater-se contra a forte correnteza sob um silêncio
profundo de solitude.
Ontem subi a um sétimo andar. Depois de um terno abraço, conheci um pequeno
templo que até então ignorava. Depois de inúmeros dias passados naquele sétimo
andar, finalmente me apercebo da existência daquele acolhedor espaço. Não é no
entanto de estranhar, pois o que lá tinha ido fazer nas vezes anteriores, foi
tudo menos andar a conhecer a casa. Muito poderia dizer sobre isso, mas fico-me
pelo malabarismo, pois afinal de contas, foi lá que percebi que poderia ter
feito carreira como malabarista. Eu e todos os habitantes que comigo partilharam
aquele sétimo andar. E só quem tentou um dia fazer malabarismo percebe que o
segredo é tratar todas as bolas de igual forma. Mesmo que uma pareça presa à
mão e a outra vagabunde pelo ar.
Ambos os areais são essências à nossa existência. Podemos gostar de olhar
mais para um, tal como eu o fiz no topo da basílica. Não podemos é ignorar o
outro areal, porque na vida, tal como no malabarismo, o segredo está no
movimento continuo. Em algum momento iremos necessariamente tocar
todos os diferentes areais. E no curto espaço de tempo que um destes areais se encontre na nossa
mão, teremos de tirar o máximo partido desse momento, antes de o ver elevar-se novamente
no ar.
Aquele sétimo andar é torneado a enormes janelas. A vista é quase tão bonita
como a do zimbório do santuário em Viana do Castelo. E também lá vive uma
Luzia. Santa não sei, Wittmann, de certeza. Não existe peregrinação melhor do
que a ida àquele sétimo andar. A seguir a esta só mesmo todas as outras romarias tradicionais...desde que antecedidas de peças de carne de porco...para lamento do meu fígado..